terça-feira, 19 de outubro de 2010

Intervenção do Secretário Regional da Presidência no Colóquio sobre Imprensa Regional



Texto integral da intervenção do Secretário Regional da Presidência, André Bradford, proferida hoje, em Ponta Delgada, no Colóquio sobre Imprensa Regional, integrado nas comemorações dos 175 anos do jornal Açoriano Oriental:

“Permitam-me que comece por felicitar, em nome do Senhor Presidente do Governo Regional, os responsáveis do Açoriano Oriental, e da respectiva empresa proprietária, pela celebração dos 175 anos de publicação do mais antigo e um dos mais emblemáticos jornais portugueses, facto que orgulha a Região e, estou certo, todos os açorianos.

Esta saudação é naturalmente extensiva aos profissionais e colaboradores do Açoriano Oriental que, através do seu trabalho e empenhamento, tornam possível que o jornal continue a honrar todos os que por ele passaram e que contribuíram para a sua rica história.

Desde a sua fundação, em 1835, o Açoriano Oriental resistiu a várias crises e atravessou importantes momentos históricos, chegando aos nossos dias como um jornal regional de referência, possuidor de uma estabilidade, uma notoriedade e uma influência editorial dignas de registo.

Saúdo também os organizadores por terem aproveitado esta ocasião comemorativa para promover um debate pertinente e qualificado, servido por especialistas de inegável valia (grupo do qual me excluo, obviamente), sobre o futuro da imprensa regional, quer ao nível editorial, quer no que diz respeito à gestão e administração das empresas de comunicação social de âmbito regional.

Debate-se pouco a comunicação social e o jornalismo nos Açores e, sobretudo, reflecte-se pouco, de forma aberta, participada e descomplexada, sobre as especificidades do negócio e da actividade jornalística numa região com as características da nossa.

Pela própria natureza da actividade, pela forma como concebemos o relacionamento entre os poderes públicos e o poder mediático, é nosso entendimento que ao Governo Regional, neste âmbito, compete sobretudo fomentar e potenciar, através da disponibilização de meios para o efeito, a capacidade de iniciativa dos próprios órgãos de comunicação social, das empresas que os possuem e dos profissionais de comunicação social que neles trabalham, para, da forma que entenderem mais adequada, pensarem as questões que se colocam à actividade ou à profissão.

Não temos tido grande sucesso neste intento, apesar de anualmente prevermos, no quadro do PROMEDIA – Programa de Apoio à Comunicação Social dos Açores, uma linha específica de apoio à realização de iniciativas de formação, debate e actualização de conhecimentos, promovidas por meios de comunicação social regional.

É por isso que nos associamos com muita satisfação a este colóquio e que nele depositamos fundadas esperanças, também enquanto incentivo para um debate mais abrangente e regular.

Minhas Senhoras e Meus Senhores,

A pergunta pelo futuro da imprensa regional é, quando entendida em sentido amplo, uma inquietação quase filosófica e de resposta necessariamente aberta, tal é a vertigem tecnológica, empresarial e editorial em que tem vivido a indústria da comunicação social.

Entendida assim, não é muito diferente do contexto de dúvida e indefinição em que operam actualmente as várias empresas de comunicação social, sejam elas a The New York Times Company, a News Corp, de Rupert Murdoch, ou o Jornal As Flores.

Tal como os grandes conglomerados empresariais do sector dos media, também a imprensa regional atravessa desafios poderosos relacionados com a integração de suportes (papel versus online), com o modelo de comercialização e acesso à informação (pago versus gratuito), com a concorrência dos novos meios de informação e comunicação ou com a especialização de conteúdos.

Contudo, e se exceptuarmos os grupos regionais de comunicação social dos grandes países – que são regionais numa outra escala completamente distinta da nossa realidade -, pela sua dimensão média e pela dimensão dos mercados onde opera, a imprensa regional sofre com maior intensidade os impactos negativos da mudança e tem menos meios de defesa do que os media multinacionais ou nacionais perante a permanente reestruturação do mercado da comunicação social e a instabilidade que lhe está associada.

Creio, porém, que os mesmos factores que limitam a capacidade de reacção proporcionam um outro tipo de resposta, transformando as fraquezas em forças e as limitações em vantagens comparativas.

Julgo que os Açores são disso um bom exemplo e vou tentar demonstrá-lo.

Se é certo que, de acordo com os últimos dados do INE disponíveis, a Região regista o menor número de publicações periódicas a nível nacional (31 no total); se é verdade que é muito difícil a um jornal ou revista produzida e editada nos Açores assumir-se como verdadeiramente regional, dada a descontinuidade territorial e o peso da unidade ilha nos hábitos de consumo informativo; se é também reconhecido que existem na Região micro-empresas de comunicação social a operar em micro-mercados

– se tudo isto é válido, não é menos certo que, em termos de tiragem e circulação, a Região suplanta o Algarve; que edita mais do que o Algarve, o Alentejo e a Madeira; que vende mais do que o Algarve e quase tantos exemplares como a Madeira e o Alentejo; que regista a maior estabilidade de títulos do país, sendo que 30 dos 31 títulos editados nos Açores têm 20 ou mais anos; e, finalmente, que se verifica uma proporção muito semelhante entre custos e proveitos àquela registada nas restantes regiões do país.

Estamos, pois, de uma forma geral, perante um cenário de estabilidade, de adequação proporcional do número de títulos às características populacionais e territoriais da nossa Região, e, em alguns casos, muito perto dos limites do próprio mercado.

Temos plena consciência que estes números genéricos englobam realidades muito distintas e agregam casos que não são susceptíveis de comparação.

Nalguns casos, como nas Flores ou em Santa Maria, mais do que numa aposta empresarial, estaremos antes a falar de projectos de forte pendor cívico e de inegável relevância comunitária. Noutros, como em S. Miguel ou na Terceira, estaremos a pensar em produtos de vocação comercial, editados por empresas estruturadas e actuando em ambiente de livre concorrência.

Por estar ciente destas especificidades é que o Governo Regional estruturou o seu sistema de apoios à Comunicação Social, no valor de 600 mil euros/ano durante quatro anos, de acordo com a lógica de funcionamento da nossa imprensa regional, fomentando o investimento na qualificação técnica e tecnológica, nos casos em que o mercado fornece base suficiente de financiamento, e acrescentando uma componente de apoio ao funcionamento e majorações diversas nos casos em que o mercado é muito diminuto ou quase inexistente.

Como é do conhecimento geral, nos Açores, ao contrário do que acontece noutras regiões do País, o Governo não é proprietário de qualquer órgão de Comunicação Social e não pretende sê-lo, nem directa nem indirectamente.

No entanto, estamos conscientes de que este é um sector vulnerável e que enfrenta limitações específicas nos Açores e, por isso mesmo, entendemos que ao Governo cabe, supletivamente, um papel de apoio na criação de condições que estimulem o seu desenvolvimento, o progresso e requalificação das empresas, dos seus recursos humanos e dos seus produtos.

Agora que o PROMEDIA está a chegar a metade do seu período de vigência, iremos proceder, conjuntamente com todos os agentes do sector que connosco queiram colaborar, a um balanço intercalar, para verificarmos da eficácia das linhas de apoio existentes, da utilização que às mesmas tem sido dada ou da necessidade de algum ajustamento que melhore a aplicação do programa.

Minhas Senhoras e Meus Senhores,

A proximidade - de acesso às fontes, informativa ou temática, e referencial – é, em meu entender, o principal factor diferenciador e a maior vantagem competitiva da imprensa regional.

Embora tenhamos sempre esperanças em ver a Região tratada com rigor e com o destaque merecido na imprensa de difusão nacional, não é na agenda dos media nacionais que um açoriano espera ver reflectida a realidade da sua terra, por muito que os meios de comunicação social do continente disponham de vantagens evidentes de escala, tecnológicas ou em termos de recursos técnicos.

Se é verdade que, como afirmavam recentemente alguns responsáveis editoriais por jornais da Região, nos Açores todos se conhecem e o meio é pequeno, não é menos verdade que ninguém nos conhece tão bem como nós próprios, e esse é uma vantagem dada, uma decorrência do nosso afastamento e da nossa dimensão, que, por isso, nunca estará dependente da capacidade de sermos tão eficientes ou tão poderosos como os maiores.

Por outro lado, também é, a meu ver, incontestável que a questão central, contrariamente às grandes teses dos anos 70 do século passado, não é o meio, é a mensagem, e que qualquer mensagem que seja referencialmente próxima, devidamente trabalhada em termos jornalísticos e facilmente acessível será sempre muito mais forte do que qualquer limitação técnica.

Em papel ou em versão digital, física ou virtualmente, nas mãos, no computador ou no telemóvel, o que é preciso é que a imprensa regional conheça o seu público, se vá habituando aos seus novos hábitos, e fale a sua linguagem. Como escrevia recentemente, a este propósito, Henrique Monteiro, no Expresso, a questão primordial estará sempre na qualidade da informação e na capacidade de produzir bons conteúdos.
É por isso que me parece desajustado que se continuem a justificar por vezes (vezes de mais diria) opções de gestão mal sucedidas, decisões editoriais incompreensíveis ou modelos desadequados de organização do trabalho jornalístico com a proverbial pequenez ou a estafada distância.
Acresce também que os padrões de profissionalismo, o respeito pela função social do jornalismo e pelas regras deontológicas do exercício da actividade, bem como a credibilidade da marca, não dependem da dimensão da empresa, da tiragem do jornal ou do número de jornalistas em cada redacção. Dependem sim da cultura da empresa e da consciência dos responsáveis editoriais e de cada um dos jornalistas, e esse é também um factor competitivo inestimável, em relação ao qual a imprensa regional açoriana estará, em tese, tão habilitada como qualquer outra.
O respeito pelo público é a essência do dever de informar. O respeito pelo mercado é a essência do direito ao sucesso. Nenhum deles depende predominantemente da técnica. Numa sociedade aberta e plural, é o escrutínio que deles fizerem os públicos, o que investe e o que consome, mais do que qualquer outra coisa, que determina o futuro de um projecto editorial.
Desejo-vos, pois, uma profícua jornada de trabalho e muito obrigado pela vossa atenção. “



GaCS/LFC

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