
A Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Angra do Heroísmo incorporou recentemente uma parte substancial da biblioteca pessoal de George Philips Dart, por doação de Jorge de Castro Parreira, seu descendente. Natural da Irlanda, George Philips Dart foi um abastado proprietário terceirense, figura maior da ilha Terceira e dos Açores, na época da produção e do comércio da laranja.
A coleção agora incorporada, constituída no século XIX, compreende obras dos clássicos e dos grandes autores ingleses e franceses. Os exemplares doados estão a ser sujeitos a procedimentos de rotina e serão disponibilizados para consulta logo que possível.
George Philips Dart nasceu em Waterford, Irlanda, a 31-5-1811 e faleceu na sua casa da Rua de S. Francisco, 6, 2º, em Lisboa (Mártires) a 22-3-1885, tendo sido sepultado no Cemitério dos Prazeres.
Não se sabe em que ano chegou à Terceira, mas era certamente muito novo, pois em 1831 – ou seja, com 20 anos de idade -, já fazia um empréstimo de 10 contos de reis à Junta de Fazenda da Regência. Começou a sua atividade como comerciante por grosso, com armazém nos baixos da sua casa da rua do Salinas, em Angra. À medida que a sua fortuna se consolidava, foi adquirindo inúmeras propriedades na Terceira, especialmente vocacionadas para a plantação de pomares de laranjeiras, como a quinta da Canada do Célis, com o seu «cottage» que mandou construir, e a Quinta do Martelo.
Capitalista e abastado proprietário, é como se lhe referem os jornais, ao noticiar a sua morte. Manteve durante toda a vida frequentes contactos com a Inglaterra, onde se deslocava com muita regularidade, não só para tratar dos seus negócios, como para a educação dos seus filhos. Possuía uma importante livraria, na qual avultavam os clássicos franceses e ingleses.
Foi o primeiro agente consular do Brasil na Terceira, após a proclamação da independência daquela antiga colónia portuguesa, lugar que exerceu, com a categoria de vice-cônsul, nomeado por carta de 2-5-1838, até 1857. Foi também agente consular da Áustria, por carta de 6-7-1842, até 1884 e agente consular dos E.U.A., por carta de 20-9-1850, até 1862. Foi ainda agente do Banco Nacional Ultramarino, na Terceira.
Recebeu a Comenda da Ordem de Cristo, por proposta do Ministro da Fazenda, como testemunho do apreço pelos bens e serviços que prestou ao cofre central do distrito de Angra, a fim de se levar a efeito a troca de moeda brasileira carimbada, mandada retirar da circulação no mesmo distrito.
Herdou de sua sogra uma grande quinta no Largo de S. Carlos, com suas casas nobres, casa de quinteiro, adega, cavalariças e pomar, que vendeu a 30-4-1860, a José Borges Leal Côrte-Real, depois de lhe ter retirado um lote, no qual construiu a sua própria casa (hoje sede da Secretaria Regional do Planeamento).
Por testamento pediu que o funeral se fizesse sem pompa e segundo os ritos protestantes. Deixou a sua livraria em partes iguais às suas filhas Maria e Emília; o relógio e a cadeia de ouro, o anel de diamante e o anel de brasão de ouro ao filho Jorge.
Casou no oratório do Paço Episcopal (reg. Sé) a 5-12-1839 com D. Francisca Elísia de Sampaio e Lemos, da Casa da Madre de Deus.
George Dart era protestante (Church of England), pelo que a mulher teve que requerer autorização ao Bispo para casar, declarando-se que nenhum abdicaria das suas convicções religiosas. Curiosamente, alguns dos filhos foram católicos e outros protestantes; e uns falavam inglês e outros não. A própria D. Francisca Elísia nunca falou inglês, como ela própria confessa numa carta que escreveu para as duas filhas mais velhas que estavam em Inglaterra: «As minhas filhas fação da minha parte comprimentos à tia Maria, e a Augusta e Agnes e que não reparem se lhes não escrevo mas que o motivo é por não saber inglez».
Do seu casamento teve 8 filhos, mas só tem descendência de três deles – as famílias Castro Parreira, Pereira Forjaz e Kelson (em Inglaterra). Teve ainda três filhos ilegítimos, com descendência na Terceira (Couto), Lisboa (Fagundes) e Rio de Janeiro (Dart).
Reuniu uma importante biblioteca, em que se destacam os mais conspícuos autores ingleses da época, bem como os autores clássicos. A maioria destes livros foi herdada por sua filha Emília, casada com Henrique de Castro, e destes legada a seu filho Tomé de Castro que os deixou a seu neto José Henrique de Castro da Costa Franco, que, por testamento, os deixou a seu primo Jorge de Castro Parreira, doador da coleção à Biblioteca Pública.
Os exemplares agora doados à BPHRAH estão a ser sujeitos a procedimentos de rotina e serão disponibilizados para consulta logo que possível.
GaCS
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